A síndrome do ovário policístico é uma das endocrinopatias mais comuns em mulheres em idade fértil e segue como alvo constante de estudos científicos. Recentemente, a condição passou por uma atualização em sua nomenclatura e agora é chamada de Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP). A mudança busca trazer mais precisão médica e representar de forma mais ampla os aspectos hormonais e metabólicos envolvidos na doença.
Essa condição está diretamente associada ao ganho de peso, ao acúmulo de gordura visceral e à dificuldade de emagrecer, por causa de mecanismos hormonais e metabólicos que trabalham contra a perda de peso. Neste artigo, você vai entender por que isso acontece e o que pode ser feito para melhorar a saúde de quem sofre com essa síndrome.
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A síndrome do ovário policístico engorda?

A resposta breve é sim. A SOP pode favorecer o ganho de peso e dificultar significativamente o emagrecimento. Estudos mostram que entre 38% e 88% das mulheres com SOP apresentam excesso de peso ou obesidade, uma prevalência muito superior à da população geral. Além disso, mulheres com obesidade têm 2,77 vezes mais risco de desenvolver SOP, o que revela a natureza bidirecional dessa relação.
Na prática, portanto, as duas condições se retroalimentam. A SOP favorece o ganho de peso por meio de alterações hormonais e metabólica. E o excesso de peso piora os sintomas da SOP e dificulta ainda mais o controle da condição.
Compreender os mecanismos do corpo ajuda a prevenir o temido efeito sanfona, garantindo que os resultados alcançados com o tratamento sejam duradouros.
Como a SOP causa ganho de peso: o papel da resistência à insulina
O principal mecanismo que conecta a SOP ao ganho de peso é a resistência à insulina, presente em aproximadamente 85% das pacientes com a síndrome.
Quando o organismo se torna resistente à insulina, o pâncreas precisa produzir quantidades crescentes do hormônio para manter a glicemia sob controle. Esse excesso de insulina na circulação produz uma série de efeitos que trabalham diretamente contra o emagrecimento:
O excesso de insulina estimula os ovários a produzirem mais andrógenos (testosterona e androstenediona), que prejudicam o desenvolvimento folicular, bloqueiam a ovulação e contribuem para os sintomas de hiperandrogenismo como acne, pelos excessivos e queda de cabelo.

Ao mesmo tempo, a hiperinsulinemia favorece o acúmulo de gordura abdominal visceral, aumenta a fome e a compulsão alimentar e inibe a quebra de gordura para produção de energia. O resultado é um ambiente metabólico que torna a perda de peso muito mais difícil do que seria para uma mulher sem a síndrome, mesmo com a mesma alimentação e o mesmo nível de atividade física.
Além disso, mulheres com SOP apresentam alterações específicas no tecido adiposo. Maior adipogênese (formação de gordura), menor lipólise (quebra de gordura), distribuição de gordura predominantemente visceral e menor quantidade de tecido adiposo marrom (que queima energia).
Novo nome: Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP)
Em maio de 2026, após um consenso global envolvendo 56 organizações científicas, a condição foi renomeada para Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP). A mudança foi publicada no The Lancet e reflete uma compreensão mais ampla da síndrome.
O nome antigo era problemático por dois motivos:o termo “policísticos” não é preciso, pois os achados nos ovários são folículos com desenvolvimento interrompido, não cistos patológicos. O segundo motivo é o foco nos ovários escondia que a síndrome é sistêmica, envolvendo alterações hormonais, metabólicas, inflamatórias e psicológicas muito além da esfera ginecológica.
A nova nomenclatura destaca a participação de múltiplos sistemas endócrinos e a centralidade da resistência à insulina no quadro. Os critérios diagnósticos permanecem os mesmos do Consenso de Rotterdam, e o tratamento continua individualizado.

Quais são os sintomas da SOP
Os sintomas variam em intensidade entre as pacientes, mas os mais frequentes incluem:
- Alterações menstruais: ciclos irregulares, ausência de menstruação por longos períodos ou sangramento escasso são sinais clássicos.
- Hiperandrogenismo: acne persistente, oleosidade excessiva, queda de cabelo com padrão masculino (alopecia androgenética) e crescimento excessivo de pelos no rosto e corpo (hirsutismo).
- Alterações metabólicas: ganho de peso especialmente na região abdominal, resistência à insulina, intolerância à glicose e dificuldade para emagrecer.
- Sintomas emocionais: ansiedade, oscilações de humor e depressão têm prevalência aumentada em pacientes com SOP, possivelmente pela combinação de alterações hormonais e impacto psicossocial da condição.
- Dificuldade para engravidar: a anovulação crônica é uma das principais causas de infertilidade feminina e afeta grande parte das pacientes com SOP.

Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico ainda segue os critérios do Consenso de Rotterdam. A paciente precisa apresentar pelo menos dois dos três critérios abaixo (adultos), com exclusão de outras condições que podem mimetizar a SOP.
- Alteração menstrual: nove ciclos ou menos por ano, ou ausência de ovulação confirmada.
- Hiperandrogenismo clínico ou laboratorial: acne, hirsutismo ou alopecia, ou exames mostrando elevação de testosterona total, androstenediona ou DHEA-S.
- Morfologia ovariana policística ao ultrassom: mais de 12 folículos entre 2 e 9 mm ou volume ovariano acima de 10 cm³.
Antes de confirmar a SOP, o médico deve excluir outras condições com apresentação similar, como hiperplasia adrenal congênita, hipotireoidismo, hiperprolactinemia e insuficiência ovariana primária.
Quais doenças estão associadas à SOP

A SOP vai muito além dos ovários. A síndrome aumenta o risco de uma série de complicações sistêmicas: diabetes tipo 2 e pré-diabetes, síndrome metabólica, hipertensão arterial, dislipidemia, esteatose hepática não alcoólica, apneia do sono, doença cardiovascular e câncer de endométrio (pela exposição prolongada ao estrogênio sem a oposição da progesterona).
Além disso, o impacto na saúde mental é significativo: ansiedade e depressão têm prevalência aumentada em pacientes com SOP em comparação à população geral, o que justifica a inclusão do suporte psicológico no protocolo de cuidado.
Como tratar SOP e obesidade
O tratamento precisa ser individualizado, multidisciplinar e focado tanto no controle dos sintomas hormonais quanto na melhora metabólica.
Mudanças no estilo de vida

A perda de 5% a 10% do peso corporal já é suficiente para produzir melhoras significativas em múltiplos aspectos da síndrome: ovulação, resistência à insulina, hiperandrogenismo, ciclo menstrual e fertilidade. Por isso, as mudanças no estilo de vida são a primeira linha de tratamento, independentemente do uso de medicamentos.
A alimentação deve focar na redução de carboidratos refinados e ultraprocessados, que geram picos de insulina, e na maior ingestão de proteínas magras, vegetais, fibras e gorduras boas. O exercício físico, especialmente a combinação de aeróbico com treino de força, melhora a sensibilidade à insulina, reduz a gordura visceral e favorece o reequilíbrio hormonal.
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Tratamento medicamentoso

Dependendo do quadro clínico, o médico pode indicar:
- Metformina: é o principal medicamento para controle da resistência à insulina na SOP. Melhora o metabolismo da glicose, reduz os níveis de andrógenos e pode restabelecer ciclos ovulatórios em algumas pacientes.
- Anticoncepcionais hormonais combinados: indicados para regularizar o ciclo menstrual, proteger o endométrio e controlar acne e hirsutismo em pacientes que não desejam engravidar.
- Antiandrogênicos (acetato de ciproterona): para hirsutismo moderado a grave e acne resistente.
- Agonistas de GLP-1 (como tirzepatida): aprovados para obesidade no Brasil, têm mostrado benefícios adicionais em pacientes com SOP ao melhorar a resistência à insulina, reduzir a gordura visceral e contribuir para a perda de peso.
- Indutores de ovulação (letrozol): para mulheres que desejam engravidar e não ovulam espontaneamente.
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Quando procurar um médico
Procure avaliação especializada se você:
- Tem ciclos menstruais irregulares há mais de três meses
- Apresenta sinais de hiperandrogenismo como acne persistente, hirsutismo ou queda de cabelo
- Tem dificuldade para engravidar
- Não consegue emagrecer mesmo com mudanças na alimentação e atividade física
- Recebeu diagnóstico de SOP e quer investigar o impacto metabólico completo
O monitoramento deve incluir peso, IMC, circunferência abdominal, glicemia, perfil lipídico, dosagens hormonais e ultrassom pélvico periodicamente.

Cuide da sua saúde hormonal e metabólica com quem entende do assunto
A SOP é uma condição crônica, mas pode ser controlada com uma abordagem adequada e individualizada.
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Perguntas frequentes sobre SOP e obesidade
Sim. A SOP favorece o ganho de peso e dificulta o emagrecimento principalmente pela resistência à insulina, que aumenta o apetite, favorece o acúmulo de gordura visceral e inibe a quebra de gordura. Estudos mostram que até 60% das mulheres com SOP apresentam excesso de peso ou obesidade
Sim. Com tratamento adequado, alimentação controlada, exercícios regulares e acompanhamento médico, o emagrecimento é possível. A perda de 5 a 10% do peso já melhora significativamente os sintomas hormonais, a ovulação e a fertilidade. O processo pode ser mais lento do que para mulheres sem a síndrome, mas é completamente viável.
Sim. A resistência à insulina está presente em aproximadamente 85% das pacientes com SOP e é o principal mecanismo que conecta a síndrome ao ganho de peso, ao hiperandrogenismo e à dificuldade de ovulação. Ela é também o principal alvo terapêutico no tratamento metabólico da SOP.
Sim. Mulheres com SOP têm risco significativamente maior de desenvolver diabetes tipo 2, síndrome metabólica e doenças cardiovasculares. Por isso, o monitoramento de glicemia, hemoglobina glicada e perfil lipídico deve ser parte do acompanhamento regular.


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